Uso Crônico de Omeprazol e IBPs: riscos para o intestino e alternativas no estilo de vida
- FERNANDO SALAN

- 29 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
O uso crônico (prolongado) de IBPs, como omeprazol, traz riscos sérios ao intestino. Saiba como reduzir a dependência com estilo de vida saudável.

Os inibidores da bomba de prótons (IBPs) — como omeprazol, pantoprazol (Prasol, Quanto Prasol, entre outros) — estão entre os medicamentos mais utilizados no mundo. Indicados para condições como refluxo gastroesofágico, úlceras e gastrite, eles são extremamente eficazes em reduzir a produção de ácido gástrico.
Entretanto, o uso indiscriminado e prolongado (crônico), muitas vezes sem prescrição médica, tem se tornado um problema de saúde pública. Estudos recentes alertam para riscos importantes relacionados ao uso crônico, incluindo deficiências nutricionais, maior risco de infecções, osteoporose e até alterações na microbiota intestinal.
Na perspectiva da Medicina do Estilo de Vida, compreender esses riscos e buscar alternativas baseadas em hábitos saudáveis é essencial para garantir saúde digestiva a longo prazo.
Como funcionam os IBPs
Os IBPs bloqueiam a enzima H+/K+ ATPase, presente nas células parietais do estômago, reduzindo drasticamente a produção de ácido gástrico. Essa ação é útil para cicatrizar úlceras, aliviar sintomas de refluxo e prevenir complicações em casos específicos, como no uso prolongado de anti-inflamatórios.
O problema não está no uso pontual e bem indicado, mas sim no uso contínuo e sem acompanhamento médico, que muitas vezes se prolonga por anos sem real necessidade.
Riscos do uso crônico
Pesquisas científicas recentes têm identificado uma série de riscos associados ao uso prolongado de IBPs:
Deficiências nutricionaisA redução do ácido gástrico prejudica a absorção de nutrientes como vitamina B12, ferro, cálcio e magnésio. Isso pode levar a anemia, osteoporose e fraqueza muscular ao longo do tempo.
Infecções gastrointestinaisO ácido gástrico é uma barreira natural contra microrganismos. Com menos acidez, aumenta o risco de infecções intestinais, incluindo Clostridioides difficile, associada a diarreias graves.
Doenças renaisEstudos populacionais têm mostrado associação entre uso prolongado de IBPs e maior risco de doença renal crônica.
Alterações na microbiota intestinalAo modificar o ambiente gástrico, os IBPs alteram também a composição da microbiota, favorecendo disbiose, que pode contribuir para distúrbios digestivos e inflamatórios.
Risco cardiovascular e demência (em investigação)Alguns estudos sugerem associação entre uso prolongado de IBPs e maior incidência de eventos cardiovasculares e declínio cognitivo, embora ainda não haja consenso definitivo.
O problema da automedicação
Um dos principais fatores que levam ao uso excessivo dos IBPs é a automedicação. Como esses medicamentos são acessíveis e trazem alívio rápido dos sintomas, muitos pacientes os utilizam de forma contínua sem investigar a causa do problema.
No caso do refluxo, por exemplo, é comum tratar apenas os sintomas, enquanto fatores como sobrepeso, sedentarismo, má alimentação e sono inadequado seguem sem ser corrigidos. O resultado é a dependência medicamentosa e a negligência das mudanças de estilo de vida que poderiam resolver a raiz do problema.
O papel da Medicina do Estilo de Vida
O International Board of Lifestyle Medicine (IBLM) reforça que intervenções no estilo de vida devem ser a base do tratamento para muitas condições digestivas, reduzindo a necessidade de medicamentos a longo prazo. Algumas estratégias eficazes incluem:
Nutrição equilibrada: reduzir ultraprocessados, excesso de gordura e álcool, que aumentam o refluxo.
Controle do peso: a obesidade é um dos maiores fatores de risco para refluxo gastroesofágico.
Evitar refeições tardias e pesadas: dar um intervalo de pelo menos 2–3 horas entre a última refeição e o sono.
Sono e posicionamento: elevar a cabeceira da cama e evitar deitar logo após comer ajudam a reduzir sintomas.
Gerenciamento do estresse: estresse crônico agrava sintomas digestivos; práticas como mindfulness e respiração podem ser úteis.
Atividade física regular: melhora o metabolismo, reduz o peso abdominal e protege contra sintomas de refluxo.
Evidências recentes:
Um estudo publicado no BMJ (2023) reforçou que o uso prolongado de IBPs está associado a aumento do risco de insuficiência renal crônica.
Revisões sistemáticas apontam associação com maior incidência de infecções por C. difficile.
Pesquisas em microbioma mostraram que usuários crônicos de IBPs apresentam menor diversidade bacteriana intestinal, o que pode afetar imunidade e saúde geral.
Diretrizes internacionais recomendam que os IBPs sejam usados pelo menor tempo possível e em dose mínima eficaz, com reavaliação periódica da necessidade.
Estratégias práticas para reduzir a dependência de IBPs:
Nunca suspenda o medicamento sem orientação médica — a interrupção brusca pode gerar “efeito rebote”.
Converse com seu médico sobre a real necessidade do uso prolongado.
Associe mudanças de estilo de vida que reduzam os sintomas de refluxo e gastrite.
Avalie alternativas terapêuticas, como uso intermitente ou em dias alternados, sempre com supervisão.
Mantenha check-ups regulares para monitorar níveis de vitaminas, minerais e função renal.
Conclusão
Os inibidores da bomba de prótons são medicamentos valiosos, mas seu uso indiscriminado pode trazer riscos sérios à saúde digestiva e geral. O alívio rápido dos sintomas não deve substituir o tratamento das causas, especialmente quando estas podem ser manejadas por mudanças no estilo de vida.
A ciência é clara: o uso prolongado de IBPs deve ser evitado sempre que possível, e os pacientes devem ser orientados a buscar soluções integradas, que envolvem nutrição, sono, atividade física, manejo do estresse e controle de peso. A prevenção e o cuidado com hábitos diários são aliados mais poderosos — e seguros — para proteger o aparelho digestivo no longo prazo.
-- Fernando Salan




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