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Riscos do Uso Prolongado de IBPs para o Estômago: o que a ciência mostra

Uso crônico (Prolongado) de IBPs pode causar gastrite atrófica, pólipos gástricos e risco aumentado de câncer. Entenda os cuidados necessários.


Uso Prolongado de IBPs

Os inibidores da bomba de prótons (IBPs), como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol, são amplamente prescritos para tratar gastrite, refluxo e úlceras. Esses medicamentos revolucionaram a gastroenterologia ao oferecerem alívio rápido e proteção eficaz da mucosa gástrica.

Porém, seu uso prolongado de IBPs e sem acompanhamento médico tem se tornado cada vez mais comum, muitas vezes pela automedicação. E é justamente no estômago — órgão alvo da ação desses medicamentos — que surgem alguns dos principais riscos. Estudos recentes levantam preocupações importantes sobre os efeitos colaterais de longo prazo.


Como os IBPs atuam no estômago


Os IBPs reduzem drasticamente a produção de ácido gástrico, bloqueando a enzima responsável pela secreção de ácido clorídrico. Esse efeito protege a mucosa contra lesões, cicatriza úlceras e reduz sintomas de refluxo.

Mas o ácido não é apenas um “vilão”. Ele tem funções cruciais, como:

  • Ajudar na digestão das proteínas.

  • Facilitar a absorção de minerais.

  • Controlar o crescimento de microrganismos no estômago.

Quando a produção de ácido é suprimida por muito tempo, esses processos naturais ficam comprometidos.


Efeitos do uso prolongado sobre o estômago:
  1. Gastrite atróficaO uso crônico de IBPs pode estar associado à gastrite atrófica, caracterizada pela perda gradual das glândulas do estômago. Essa condição aumenta o risco de deficiência de vitamina B12 e até de câncer gástrico em alguns casos.

  2. Hiperplasia de células enterocromafins (ECL)A supressão ácida prolongada leva ao aumento da produção de gastrina, hormônio que estimula o estômago. Isso pode provocar hiperplasia de células ECL, aumentando o risco de pólipos gástricos e, raramente, tumores neuroendócrinos.

  3. Infecção por Helicobacter pyloriO ácido gástrico ajuda a controlar a colonização bacteriana. Quando reduzido, facilita a progressão de infecções por H. pylori, já associadas à gastrite crônica e ao câncer gástrico. Por isso, guidelines recomendam investigar e tratar o H. pylori antes de iniciar terapias prolongadas com IBPs.

  4. Pólipos gástricos benignosPacientes em uso de IBPs por longos períodos podem desenvolver pólipos no fundo gástrico. Embora geralmente benignos, são marcadores de exposição prolongada e devem ser monitorados.

  5. Má absorção e digestãoA redução da acidez compromete a digestão das proteínas e pode levar à má absorção de ferro, cálcio e magnésio. Isso afeta não apenas o estômago, mas todo o metabolismo.


Evidências científicas recentes:


  • Uma revisão publicada no Gut (2022) destacou a associação entre o uso crônico de IBPs e o aumento de risco para gastrite atrófica e pólipos gástricos, especialmente em pacientes infectados por H. pylori.

  • Estudos populacionais apontam maior prevalência de pólipos gástricos em pacientes com uso contínuo de IBPs por mais de 5 anos.

  • Pesquisas também sugerem que a supressão ácida prolongada pode aumentar o risco de câncer gástrico em populações com alta prevalência de H. pylori, reforçando a importância da erradicação prévia.


O problema da automedicação


Grande parte dos pacientes inicia o uso de IBPs sem prescrição médica, muitas vezes para tratar sintomas de azia recorrente. O problema é que sintomas persistentes podem sinalizar doenças graves, como úlceras, gastrite avançada ou até câncer gástrico.

Quando o medicamento mascara os sintomas sem investigar a causa, há risco de atrasar diagnósticos precoces e comprometer o tratamento.


O papel da Medicina do Estilo de Vida

O International Board of Lifestyle Medicine (IBLM) reforça que medidas de estilo de vida são fundamentais para reduzir a dependência de medicamentos em doenças gastrointestinais. Para quem sofre com refluxo ou gastrite funcional, mudanças podem ser mais eficazes a longo prazo do que o uso contínuo de IBPs:

  • Nutrição adequada: evitar alimentos ultraprocessados, cafeína e excesso de álcool.

  • Controle do peso abdominal: obesidade é fator de risco para refluxo.

  • Horários de refeição: não deitar após comer e evitar refeições noturnas pesadas.

  • Sono adequado: elevar a cabeceira da cama em casos de refluxo noturno.

  • Gerenciamento do estresse: reduzir tensão emocional ajuda no controle de sintomas gástricos.

Estratégias práticas para reduzir riscos:

  • Usar IBPs somente sob orientação médica e pelo menor tempo possível.

  • Avaliar periodicamente a necessidade de manutenção da medicação.

  • Investigar a presença de H. pylori antes de tratamentos longos.

  • Substituir por alternativas em casos leves, como antiácidos ou bloqueadores H2, sempre com orientação profissional.

  • Integrar mudanças no estilo de vida como primeira linha de defesa contra refluxo e gastrite funcional.


Conclusão

Os IBPs transformaram o tratamento de doenças gástricas, mas seu uso crônico, sem acompanhamento médico, pode trazer sérios riscos ao estômago. Gastrite atrófica, pólipos gástricos, risco aumentado em casos de H. pylori e má absorção de nutrientes estão entre as principais preocupações científicas atuais.

Mais do que nunca, é essencial adotar medidas de estilo de vida que reduzam os sintomas e reservem os IBPs para quando realmente forem necessários. Cuidar do estômago não significa apenas aliviar a azia, mas também proteger sua saúde digestiva no futuro.


-- Fernando Salan

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