Omeprazol causa câncer? O maior estudo já publicado traz uma resposta que pode mudar essa história
- Fernando Salan

- há 2 dias
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Se você já pesquisou sobre omeprazol na internet, provavelmente encontrou manchetes preocupantes: "Omeprazol aumenta o risco de câncer de estômago", "Uso prolongado pode ser perigoso" ou "Quem toma omeprazol por muitos anos corre mais risco de desenvolver câncer".
Essas notícias geraram preocupação em milhões de pessoas. Muitos pacientes passaram a interromper o tratamento por conta própria, enquanto outros conviviam diariamente com a dúvida: será que estou fazendo mal ao meu organismo ao tomar esse medicamento?
Agora, um dos maiores estudos já realizados sobre o tema traz uma resposta mais tranquilizadora — e reforça a importância de interpretar a ciência com cautela.
Quando uma associação não significa causa
Os inibidores da bomba de prótons (IBPs), como omeprazol, pantoprazol, esomeprazol, lansoprazol e rabeprazol, estão entre os medicamentos mais prescritos no mundo. Eles revolucionaram o tratamento do refluxo gastroesofágico, das úlceras e de diversas doenças relacionadas ao excesso de ácido no estômago.
Nos últimos anos, porém, alguns estudos observacionais sugeriram que pessoas que utilizavam esses medicamentos por muitos anos apresentavam uma maior incidência de câncer gástrico.
À primeira vista, parecia uma relação preocupante. Mas existe um detalhe importante: observar que duas coisas acontecem juntas não significa que uma seja a causa da outra. Imagine que, em uma cidade, pessoas que usam guarda-chuva aparecem com mais frequência em dias de ruas molhadas. Isso não significa que o guarda-chuva provoque a chuva. Na verdade, ambos são consequência do mesmo fator: o mau tempo. Omeprazol causa câncer
Na medicina acontece algo semelhante. Muitos pacientes que utilizam IBPs por longos períodos já apresentam doenças que, por si só, aumentam o risco de câncer gástrico, como a infecção pelo Helicobacter pylori, gastrite atrófica ou úlceras. Separar o efeito da doença do efeito do medicamento é um enorme desafio científico.
O maior estudo já realizado Omeprazol causa câncer
Para responder essa dúvida, pesquisadores de cinco países nórdicos analisaram dados nacionais de saúde envolvendo uma população enorme. O estudo, publicado em 2026 no BMJ (British Medical Journal), incluiu:
mais de 17 mil pacientes com adenocarcinoma gástrico;
mais de 172 mil indivíduos utilizados como grupo de comparação;
dados populacionais de aproximadamente 26 anos de acompanhamento;
ajuste para diversos fatores que poderiam distorcer os resultados, como idade, tabagismo, obesidade, diabetes, doenças gástricas e infecção por Helicobacter pylori.
Essa metodologia permitiu uma avaliação muito mais precisa do que estudos anteriores.
O resultado surpreendeu
Depois que todos esses fatores foram considerados, o resultado foi claro:
o uso prolongado de IBPs não esteve associado a um aumento significativo do risco de adenocarcinoma gástrico.
Em outras palavras, boa parte da preocupação gerada por estudos anteriores provavelmente era explicada por fatores de confusão e não pelo medicamento em si.
Isso representa uma mudança importante na forma como interpretamos esse tema.
Então o omeprazol é totalmente isento de riscos?
Não. Esse estudo não significa que os IBPs possam ser utilizados sem critério ou indefinidamente por qualquer pessoa. Como qualquer medicamento, eles possuem efeitos adversos conhecidos. Entre os principais efeitos relacionados ao uso prolongado estão:
desenvolvimento de pólipos benignos das glândulas do fundo gástrico;
aumento dos níveis de gastrina (hipergastrinemia);
hiperplasia das células enterocromafins (ECL);
redução da absorção de vitamina B12, ferro, magnésio e cálcio em alguns pacientes;
maior suscetibilidade a determinadas infecções gastrointestinais.
A boa notícia é que esses efeitos são relativamente incomuns, geralmente dependem do tempo de uso e, na maioria das vezes, podem ser prevenidos com acompanhamento médico adequado.
O verdadeiro protagonista continua sendo o Helicobacter pylori
Uma das mensagens mais importantes do estudo é que o principal fator de risco para câncer gástrico continua sendo a infecção pelo Helicobacter pylori. Essa bactéria provoca inflamação crônica da mucosa do estômago, podendo evoluir para gastrite atrófica, metaplasia intestinal e, em uma pequena parcela dos pacientes, câncer gástrico.
Por isso, em pessoas que necessitam de tratamento prolongado com IBPs, pode ser indicado investigar e tratar essa infecção quando houver suspeita clínica ou indicação pelas diretrizes.
O que dizem as diretrizes atuais?
As sociedades médicas continuam recomendando que os IBPs sejam utilizados quando realmente indicados. Situações como:
doença do refluxo gastroesofágico erosiva;
esôfago de Barrett;
úlceras gástricas e duodenais;
prevenção de sangramento em pacientes que utilizam anti-inflamatórios;
síndrome de Zollinger-Ellison.
Nesses casos, os benefícios do tratamento superam amplamente os riscos conhecidos. Por outro lado, o uso contínuo por automedicação ou sem reavaliações periódicas deve ser evitado.
O papel da Medicina do Estilo de Vida
Em muitos pacientes, principalmente aqueles com refluxo leve ou sintomas funcionais, mudanças no estilo de vida podem reduzir significativamente a necessidade de medicamentos. Entre as medidas mais eficazes estão:
perda de peso quando indicada;
evitar refeições volumosas à noite;
não se deitar logo após comer;
reduzir consumo de álcool e tabaco;
diminuir alimentos que desencadeiam sintomas individualmente;
manter atividade física regular.
Essas estratégias não substituem o tratamento quando ele é necessário, mas frequentemente permitem utilizar doses menores ou por períodos mais curtos.
A principal mensagem deste estudo
A ciência evolui continuamente. Durante muitos anos acreditou-se que o uso prolongado dos IBPs poderia aumentar diretamente o risco de câncer gástrico. Hoje, estudos mais robustos mostram que essa associação provavelmente refletia características dos próprios pacientes, e não um efeito do medicamento.
Isso não significa que o omeprazol deva ser usado indiscriminadamente. Significa que ele deve ser utilizado na indicação correta, na menor dose eficaz e pelo tempo realmente necessário, sempre com acompanhamento médico.
Em medicina, nem todo risco aparente é um risco verdadeiro. E esse novo estudo é um excelente exemplo de como pesquisas de alta qualidade ajudam a separar mitos de evidências, permitindo decisões mais seguras tanto para médicos quanto para pacientes.
Dr. Fernando Salan
Cirurgião do Aparelho Digestivo | GastroenterologistaConteúdo baseado nas melhores evidências científicas para ajudar você a tomar decisões informadas sobre sua saúde.
Referências
BMJ. Proton pump inhibitor use and risk of gastric adenocarcinoma: nationwide nested case-control study across Nordic countries. BMJ. 2026;392:e086384.
Malfertheiner P, et al. Management of Helicobacter pylori infection – Maastricht VI/Florence Consensus Report. Gut. 2022.
Katz PO, Dunbar KB, Schnoll-Sussman FH, et al. ACG Clinical Guideline for Gastroesophageal Reflux Disease.American Journal of Gastroenterology. Atualizações vigentes.
Freedberg DE, Kim LS, Yang YX. The Risks and Benefits of Long-term Use of Proton Pump Inhibitors.Gastroenterology.




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