Teste FIT substitui a colonoscopia? Entenda o que realmente mudou no rastreamento do câncer de intestino
- Fernando Salan

- 22 de jul.
- 4 min de leitura
Nos últimos dias, muitos pacientes chegaram ao consultório fazendo exatamente a mesma pergunta:
"Doutor, agora existe um exame melhor que a colonoscopia?"
A dúvida surgiu após a ampla divulgação da notícia de que o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a adotar o teste FIT como estratégia para o rastreamento do câncer colorretal.
A notícia é extremamente importante e representa um avanço para a saúde pública brasileira. Entretanto, algumas interpretações podem gerar confusão, principalmente quando se conclui que o teste FIT substitui a colonoscopia.
A resposta é simples:
Não.
O FIT e a colonoscopia não competem entre si. Eles possuem objetivos diferentes e são indicados em situações diferentes.
Antes de tudo: o teste FIT não é uma novidade

Embora a notícia tenha dado a impressão de que surgiu um novo exame, o FIT (Fecal Immunochemical Test) existe há mais de três décadas.
Os primeiros testes começaram a ser desenvolvidos no final da década de 1980 e passaram a ser utilizados amplamente nos anos 1990. Nas últimas duas décadas, diversos países como Reino Unido, Holanda, Canadá, Austrália, Espanha, Itália e Japão incorporaram o FIT aos seus programas nacionais de rastreamento.
Portanto, a novidade não é o exame. A verdadeira novidade é sua incorporação como estratégia organizada de rastreamento no SUS.
O que o teste FIT realmente detecta?
Existe um detalhe muito importante que poucas reportagens explicaram.
O FIT não detecta câncer.
Ele também não detecta pólipos.
O que ele detecta é hemoglobina humana nas fezes, ou seja, pequenas quantidades de sangue invisíveis a olho nu.
O exame utiliza anticorpos altamente específicos capazes de reconhecer a hemoglobina humana presente nas fezes.
Na prática, ele responde apenas a uma pergunta: Existe sangramento intestinal acima de determinado limite?
Se a resposta for sim, o paciente deve realizar uma colonoscopia para descobrir a causa desse sangramento.
Então por que ele consegue encontrar câncer?
Porque muitos cânceres colorretais sangram. Da mesma forma, alguns pólipos maiores ou mais avançados também podem apresentar pequenos sangramentos microscópicos.
O FIT identifica esse sangramento antes que ele seja percebido pelo paciente. É justamente esse diagnóstico antecipado que permite descobrir diversos tumores ainda em fases iniciais, aumentando significativamente as chances de cura.
Mas existe uma limitação importante
Como o FIT depende da presença de sangue, ele não consegue identificar todas as lesões. Essa é uma característica biológica do método. Um pólipo pequeno normalmente não sangra.
Mesmo alguns adenomas avançados podem não apresentar sangramento no momento da coleta. Da mesma forma, alguns cânceres iniciais ainda não ulceraram e podem não liberar sangue suficiente para tornar o exame positivo.
Por isso, um resultado negativo não significa que não exista doença. Significa apenas que não foi detectado sangramento acima do limite do teste naquele momento.
A grande diferença entre o FIT e a colonoscopia
A maneira mais fácil de entender essa diferença é pensar no que cada exame procura.
A colonoscopia procura a doença.
Ela visualiza diretamente toda a mucosa do intestino grosso.
O médico consegue identificar:
pólipos de poucos milímetros;
adenomas;
lesões planas;
cânceres iniciais;
inflamações;
divertículos;
angiodisplasias;
diversas outras alterações.
Além disso, durante o mesmo procedimento é possível remover pólipos e realizar biópsias. Já o FIT procura apenas um sinal indireto da doença: o sangramento. Essa diferença muda completamente o papel de cada exame.
A colonoscopia previne o câncer?
Esse talvez seja o conceito mais importante. Grande parte dos cânceres colorretais surge a partir de pólipos chamados adenomas. Esse processo costuma levar entre 10 e 15 anos. A colonoscopia permite identificar esses adenomas quando ainda são pequenos e removê-los imediatamente.
Ou seja, ela impede que muitos cânceres apareçam. Já o FIT geralmente se torna positivo apenas quando uma lesão começa a sangrar.
Por isso, a colonoscopia possui um papel preventivo que nenhum exame de fezes consegue reproduzir.
Então por que o SUS adotou o FIT?
Porque saúde pública e medicina individual seguem lógicas diferentes. Imagine uma população de um milhão de pessoas. Realizar colonoscopia em todos seria extremamente caro, exigiria milhares de profissionais, salas de endoscopia, sedação e equipamentos.
Além disso, muitas pessoas simplesmente recusariam o exame. O FIT resolve parte desse problema. É um exame simples, barato, realizado em casa e com grande aceitação pela população.
Depois, apenas quem apresenta resultado positivo é encaminhado para colonoscopia. Essa estratégia permite rastrear um número muito maior de pessoas utilizando menos recursos. Por isso ela foi adotada por diversos países ao redor do mundo.
O FIT não veio substituir a colonoscopia
Talvez esta seja a frase mais importante desta discussão.
O FIT não veio substituir a colonoscopia. Ele veio substituir a ausência de rastreamento em milhões de pessoas que nunca fariam colonoscopia.
Essa é a grande mudança. Antes, muitas dessas pessoas simplesmente não realizavam nenhum exame. Agora, pelo menos poderão fazer um teste inicial capaz de identificar quem apresenta maior risco e necessita de investigação complementar.
E na medicina privada?
Na prática da medicina privada, o cenário é diferente.
Se um paciente aceita realizar colonoscopia e possui indicação para o exame, a colonoscopia continua sendo o método mais completo para avaliação do intestino grosso.
Ela permite:
visualizar toda a mucosa;
identificar lesões muito pequenas;
remover pólipos durante o exame;
realizar biópsias;
prevenir o desenvolvimento de muitos cânceres.
O FIT pode ser uma excelente alternativa para pacientes que recusam colonoscopia ou em situações específicas de rastreamento, mas não substitui a capacidade diagnóstica e terapêutica da colonoscopia.
A mensagem mais importante
A incorporação do FIT ao SUS representa um avanço importante para o rastreamento do câncer colorretal no Brasil. No entanto, essa notícia não significa que surgiu um exame melhor do que a colonoscopia. Significa que agora existe uma estratégia capaz de ampliar o acesso ao rastreamento para milhões de brasileiros.
FIT e colonoscopia não são exames concorrentes. Eles são exames complementares. O verdadeiro objetivo não é escolher entre um ou outro. É garantir que cada paciente receba o exame certo, na hora certa, de acordo com seu risco, seus sintomas e sua realidade.
Esse continua sendo o caminho mais seguro para reduzir a incidência e a mortalidade por câncer colorretal.
Fernando Salan




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