Quando dois pólipos parecem iguais... mas um pode virar câncer e o outro nunca causará problema (biomarcadores para pólipos colorretais)
- Fernando Salan

- 5 de ago.
- 4 min de leitura
Imagine duas pessoas fazendo colonoscopia no mesmo dia. As duas têm 58 anos. As duas levam um susto quando o médico encontra um pólipo no intestino. Os dois pólipos têm praticamente o mesmo tamanho. Estão no mesmo local do cólon. Após a retirada, o patologista informa que ambos são adenomas, um tipo de pólipo considerado precursor do câncer colorretal.biomarcadores para pólipos colorretais
Até aqui, tudo parece igual. Mas existe uma pergunta que a medicina ainda tenta responder:
Será que esses dois pólipos realmente têm o mesmo potencial de se transformar em câncer?
A resposta pode ser não. E é justamente essa descoberta que está movimentando pesquisadores do mundo inteiro.
O que aprendemos até hoje? biomarcadores para pólipos colorretais

Há décadas sabemos que a maioria dos cânceres do intestino começa como um pequeno pólipo. Por isso a colonoscopia é tão importante. Ela não apenas diagnostica o câncer; ela pode impedir que ele apareça. Quando o pólipo é retirado antes de sofrer transformação maligna, interrompe-se esse processo. Entretanto, existe um detalhe curioso. Nem todo pólipo evolui para câncer.
Na verdade, a grande maioria jamais chegará a esse estágio. Alguns permanecem praticamente "adormecidos" durante muitos anos. Outros crescem lentamente. Já uma pequena parcela apresenta alterações biológicas que favorecem uma evolução mais rápida. O desafio sempre foi identificar, entre milhares de pólipos encontrados todos os anos, quais realmente representam maior risco.
O que existe "ao redor" do pólipo pode ser mais importante do que o próprio pólipo
Durante muito tempo, os médicos avaliavam principalmente aquilo que conseguiam enxergar.
O tamanho da lesão.
O formato.
O tipo de tecido.
O grau de alterações das células.
Esses fatores continuam sendo extremamente importantes e continuam orientando as recomendações atuais.
Mas a ciência começou a olhar para algo que antes recebia pouca atenção: o ambiente que cerca o pólipo. Esse ambiente recebe o nome de microambiente imunológico.
Nosso sistema imunológico está observando tudo
O intestino abriga uma das maiores concentrações de células do sistema imunológico do organismo. Elas estão constantemente patrulhando a mucosa intestinal, identificando bactérias, vírus e também células que começam a apresentar comportamento anormal.
Quando surge um pólipo, essas células de defesa também entram em ação. Em alguns casos, a resposta imunológica parece eficiente. O organismo reconhece que algo está errado e mantém aquele crescimento sob controle. Em outros casos, acontece exatamente o contrário. O pólipo consegue criar um ambiente favorável para seu crescimento, reduzindo a capacidade das células de defesa de combatê-lo. É como se ele aprendesse, pouco a pouco, a "escapar do radar" do sistema imunológico.
Dois pólipos iguais podem esconder histórias completamente diferentes
Imagine dois carros estacionados lado a lado. Externamente, ambos parecem novos. Mas um possui um motor perfeito, enquanto o outro apresenta diversas peças desgastadas por dentro. O mesmo pode acontecer com um pólipo.
Ao microscópio tradicional, duas lesões podem parecer praticamente idênticas. Porém, quando pesquisadores analisam as células imunológicas presentes ao redor dessas lesões, encontram diferenças importantes. Alguns pólipos apresentam intensa atividade de células de defesa, especialmente linfócitos T, sugerindo que o organismo mantém aquele crescimento sob vigilância.
Outros mostram sinais de inflamação persistente, presença de células que favorecem o crescimento tumoral ou mecanismos capazes de inibir a resposta imunológica. Essas diferenças podem explicar por que determinados adenomas permanecem estáveis durante anos, enquanto outros evoluem para câncer.
A medicina está aprendendo uma nova linguagem
Para estudar essas alterações, pesquisadores utilizam tecnologias extremamente avançadas. Hoje é possível analisar milhares de genes ao mesmo tempo, identificar quais células estão presentes em cada região do pólipo e até compreender como elas se comunicam entre si.
Ferramentas como sequenciamento de célula única (single-cell sequencing), transcriptômica espacial e inteligência artificial aplicada à patologia estão permitindo enxergar detalhes invisíveis até poucos anos atrás. Esses estudos estão revelando que o câncer começa muito antes do aparecimento de um tumor evidente. As primeiras mudanças acontecem justamente nessa interação entre o pólipo e o sistema imunológico.
O que isso pode mudar no futuro?
Atualmente, após a retirada de um pólipo, o intervalo para a próxima colonoscopia é definido principalmente pelo número de lesões, tamanho, tipo histológico e grau de displasia.Esses critérios são respaldados por sólidas evidências e continuam sendo a base das recomendações internacionais.Mas imagine se, além dessas informações, fosse possível descobrir o "perfil biológico" daquele pólipo.Talvez dois pacientes com lesões aparentemente iguais não precisassem do mesmo acompanhamento.
Um poderia realizar nova colonoscopia em um intervalo mais longo, enquanto outro seria acompanhado de forma mais próxima porque seu pólipo apresentava características moleculares associadas a maior risco de progressão.Esse é justamente o conceito da medicina de precisão: adaptar as decisões ao comportamento biológico individual, e não apenas à aparência da lesão.
Isso já está disponível?
Ainda não. Embora os resultados das pesquisas sejam muito promissores, esses biomarcadores ainda não fazem parte da prática clínica. As principais sociedades internacionais de gastroenterologia e endoscopia continuam recomendando que o seguimento dos pacientes seja baseado nas características tradicionais dos pólipos, pois são os critérios que possuem validação clínica robusta.
Antes que esses novos exames sejam incorporados à rotina, será necessário demonstrar que eles realmente melhoram o cuidado aos pacientes, reduzem casos de câncer e apresentam boa relação entre custo e benefício.
A boa notícia continua sendo a mesma
Enquanto a ciência trabalha para descobrir quais pólipos são biologicamente mais perigosos, existe uma estratégia que já salva milhares de vidas todos os anos. A colonoscopia. Poucos exames conseguem prevenir um câncer antes mesmo que ele apareça.
Quando um pólipo é encontrado e removido durante o exame, interrompe-se a principal via de desenvolvimento do câncer colorretal. Por isso, mesmo com toda a evolução da medicina molecular, a recomendação permanece clara: realizar o rastreamento na idade indicada, retirar os pólipos encontrados e seguir corretamente o acompanhamento orientado pelo médico.
O futuro provavelmente será cada vez mais personalizado. Mas, até que ele chegue, a prevenção continua sendo a nossa ferramenta mais poderosa.
Fernando Salan
Referências científicas
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